O defeito de famlia

Frana Jnior



Fonte:
FRANA JNIOR, Joaquim Jos da. O defeito de famlia. In: Teatro de Frana Jnior. Rio de Janeiro:
Funarte, 1980. p. 111-133. (Clssicos do Teatro Brasileiro).

Texto proveniente de:
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Claudia Moura Leite Ribeiro  So Paulo/SP

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 O DEFEITO DE FAMLIA
Frana Jnior


Comdia em um ato


Representada na Fnix Dramtica em 25 de Setembro de 1870.  
 
Personagens:   
Matias Novais, capito de cavalaria 50 anos Senhor Vasques
Gertrudes Novais  40 anos Dona Joaquina 
Josefina Novais  18 anos Dona Apolnia 
Ruprecht, criado alemo  50 anos Senhor reas 
Artur de Miranda  25 anos Senhor Galvo 
Andr Barata  30 anos Senhor Ferreira 
 
  
 
A ao passa-se no Rio de Janeiro.  
 
 
poca - Atualidade.  
 
 
 
ATO NICO  
 
 
O teatro representa uma sala regularmente mobiliada  
 
 
 
CENA I  
Gertrudes e Josefina  
 
 
 
 
Gertrudes (Examinando a sala) - Como est esta sala!  um brinco! No h nada como o servio de um criado 
estrangeiro.  
 

 
Josefina (Sentada ao lado da mesa, lendo o Jornal das Famlias.) - Na realidade, papai no podia acertar melhor.  
 
 
Gertrudes - E que moralidade, minha filha! Ontem ficou mais vermelho do que fogo de forja, porque entrando 
casualmente em nosso quarto...No me lembrava que s uma criana e que no podes saber essas coisas.  
 
 
Josefina (Com curiosidade) - O que foi, mame?  
 
 
Gertrudes - Uma indiscrio de teu pai. O que ests vendo a?  
 
 
Josefina - O ltimo figurino do Jornal das Famlias. No acha que este molde de corpinho ia-me s mil maravilhas? 
(Mostrando o jornal)  
 
 
Gertrudes - Vaidosa!  
 
 
Josefina - O Senhor Artur diz-me constantemente que quem no se enfeita, a si se enjeita.  preciso, portanto, que eu 
faa de minha parte todo o possvel por agrad-lo.  
 
 
Gertrudes - Minha filha, uma menina no deve cativar aquele a quem ama por essas fofas exterioridades que morrem 
com a lua de mel, mas sim pelos dotes do corao e do esprito.  
 
 
Josefina (Levanta-se) - O que vosmec acaba de dizer  muito bonito, mas infelizmente na nossa famlia h exemplos 
do contrrio. O noivo de Joaninha desmanchou o casamento porque, estando uma vez a conversar com ela, 
surpreendeu-lhe por baixo do vestido a ponta de um chinelo-de-tapete.  
 
 
Gertrudes - Ora, de quem vens me falar! Um desgraado, sem eira nem beira, que ia fazer a sua infelicidade! Ela deve 
levantar as mos para o cu, e agradecer  Providncia o favor que lhe concedeu.  
 
 
Josefina - E a pobre Ritinha? Enxoval pronto, o padre j falado, vem uma camada de bexigas bravas, transforma-lhe o 
rosto e o noivo desaparece de casa do dia para a noite.  
 
 
Gertrudes - Mas o Senhor Artur nunca seria capaz...  
 
 
Josefina - No  bom confiar nos homens. (Canta)  
 
 
Infeliz da mulher que acredita  
Na constncia do sexo barbado,  
Quando menos o espera  trada  
Por um ftil pretexto estudado.  
 
 
H um meio, entretanto, infalvel,  
De curv-lo ante o nosso poder,  
 primar a mulher pelo agrado.  
Quem lhe agrada h de sempre vencer.  
 
 
Gertrudes (Canta) -  
 
 

Esse noivo que a sorte te deu  
 dos homens, por certo, exceo;  
No o hs de prender com tolices.  
Mas com os dotes do teu corao.  
 
 
Josefina - Felizmente quando ele chegar h de encontrar-me de ponto em branco. Ah! mas quando penso naquilo...  
 
 
Gertrudes - A vem a tua idia fixa.  
 
 
Josefina - E no quer que isto preocupe-me o pensamento?  
 
 
Gertrudes - Eu quando me casei, minha filha, estava nas mesmas circunstncias e teu pai nunca deu pela coisa.  
 
 
Josefina - Mas os homens de hoje so to espertos...  
 
 
Gertrudes - Ora, depois de casado, que remdio ter ele seno calar-se.  
 
 
Josefina - E se ele quiser divorciar-se?  
 
 
Gertrudes - Pois isto  l motivo para divrcio!  
 
 
Josefina -  verdade que Dona Margaridinha, que  uma moa do tom, disse-me outro dia que no o era.  
 
 
Gertrudes - H uma coisa, porm, de que no te posso absolver.  
 
 
Josefina - Qual ?  
 
 
Gertrudes - Por que recebes aqui s escondidas o tal sujeito?  
 
 
Josefina -  porque...  
 
 
 
CENA II  
As Mesmas e Matias.  
 
 
 
 
Matias (Entrando pela esquerda, em trajes caseiros) - s que horas acostumam chegar os trem da serra?  
 
 
Gertrudes (Pausadamente) - O trem da serra costuma chegar s seis horas.  
 
 
Matias - A senhora diz isto assim com um to de mestre de escola! Dar-se caso que eu tenha dito alguma asneira?! J 
estou muito velho para arreceber lios.  
 
 

Gertrudes - Mas  que tu me envergonhas, Matias, todas as vezes que abres a boca em pblico. Por que no te hs de 
corrigir deste mau hbito?  
 
 
Matias - O que envergonha o homem, senhora, so as ms aos; e graas a Deus, at hoje, ainda no partiquei um auto, 
de me arrependesse. (Para Josefina) Bravo! Meu anjinho, ests que  um cu aberto! Fizestes muito bem, o Senhor 
Artur no tarda e daqui a um ms estars ligada quele excelente moo pelos laos da Santa Madre Igreja (Para 
Gertrudes) Onde est o alamo?  
 
 
Gertrudes - O alemo est l dentro arranjando o quarto, onde deve ficar o Senhor Artur.  
 
 
Matias (Gritando para dentro) - Rupretes? Xubregas? Que diabo! Como  que se pornuncia o nome daquele desarmado?  
 
 
Gertrudes (Rindo-se) - Pois se tu no podes com a tua lngua, como queres pronunciar a dos outros? (Josefina senta-se 
ao lado da mesa e l o Jornal das Famlias)  
 
 
Matias -  pena que o ladro tenha um nome to arrevesado; tirantes disso  um criado como no h igual. Srio, de 
uma moralidade exemplar, cumpridor de seus deveres, e sobretudo fiel como um cachorro. Se eu pudesse enchia esta 
casa de alames. Tive uma tima idia de mand-lo vir de Petrpolis. (Canta)  
 
 
De ter alames em casa,  
Ningum deve se queixar;  
Pois  gente papafina.  
Para uma casa guardar  
 
 
Quem quiser ter o sossego  
E a paz no corao,  
L da terra das bengalas  
Mande vir um alamo.  
 
 
Que ventura, que prazer!  
Nada tenho a desejar;  
Estou servido de criado,  
E a filha vou casar.  
 
 
E vivam os alames! (Gritando para dentro)  
Xubregas? Rupretes?  Monsi?  
 
 
 
CENA III  
Josefina, Gertrudes, Matias e Ruprecht.  
 
 
 
 
Ruprecht - Mein Herr? O senhor jamou-me?  
 
 
Matias - Sim, chamei-te. Irra! Tens um nome que no me passa da garganta. Pornucia l isso, mas com toda a vagareza.  
 
 
Ruprecht - Ruprecht Somernachtsraumenberg, uma zeu griado. (Gertrudes v o jornal com Josefina)  
 
 

Matias - Safa! Para pornunciar isto, s pondo uma batata quente na boca! J arranjastes o quarto?  
 
 
Ruprecht - Ya wohl.  
 
 
Matias - Mau, que voc est degenerando; pois agora  que vai, quando eu lhe ordenei desde manh que arrumasse 
aquilo?  
 
 
Ruprecht - Mas eu x arrumei!  
 
 
Matias - Ento como  que me vem dizer "j vou?!"  
 
 
Gertrudes (Rindo) - Este criado acaba por te tornar maluco.  
 
 
Matias - Ora, vejemos se fizeste tudo quanto te encomendei.  
 
 
Ruprecht - Est tudo brombto. Muito ponito tudo! A gama muito macia.  
 
 
Matias - O que compraste para o almoo amanh?  
 
 
Ruprecht - Rindfleich.  
 
 
Matias - Para que fostes comprar rim?  
 
 
Ruprecht - Non, non  rim...  este gouza, eu nom zabe como se jama auf portuguische.  
 
 
Matias - Que diacho  isto, ento?  
 
 
Ruprecht - Rindfleich....esse picho que tem gapea crande...poi, poi.  
 
 
Matias - Ah! vaca, vaca.  
 
 
Ruprecht - Faca, non, poi, poi.  
 
 
Matias - O que mais?  
 
 
Ruprecht - Gomprei mais uma bosta de beixe.  
 
 
Matias - Uma ova de peixe, queres dizer.  
 
 
Ruprecht - Nein; um bedao de beixe.  
 
 
Gertrudes - Ests a a usurpar as minhas atribuies. Sempre impliquei com homem que se mete com o governo da casa. 
Manda o criado embora; quando te sentares logo  mesa sabers o que h para comer.  

 
 
Matias - Tens razo; com uma mulher da tua orde e um criado destes pode-se passar a vida de braos encruzados.  
 
 
Josefina -  muito bonito este romance do Macedo.  
 
 
Matias (Vendo as horas) - O trem j devem ter chegado. Vo passarem uma vista d'olhos pelo quarto para que nada 
faltem ao filho do compadre. Eu vou fazer a barba. (Sai pela esquerda, Josefina e Gertrudes tambm saem.)  
 
 
 
CENA IV  
Ruprecht, s.  
 
 
 
 
Ruprecht - Hum! Este gaza non est pom, non. Menina tem gabea virada e velho zoldado non zabe de batifaria que fai 
por aqui. Eu no quer canha dinheiro assim. (Canta)  
 
 
Isto assim no esta ponito.  
Eu no bosso aqui fifer.  
Vai me embora b'ra Bedrobolis.  
Cerfexa e queixo facer.  
 
 
O zoldado no est mau,  
Mas menina est xirando  
Com garinha de inocente,  
Bobre noifo anda enganando.  
 
 
 
CENA V  
O Mesmo e Artur.  
 
 
Artur (Entrando pelo fundo, com uma mala) - Deus esteja nesta casa.  
 
 
Ruprecht - A quem brocura?  
 
 
Artur - Onde est o Senhor Matias?  
 
 
Ruprecht - Est facendo a parpa. Quem  o zenhor?  
 
 
Artur - V dizer-lhe que est aqui o filho do seu compadre.  
 
 
Ruprecht - Ah!  o zenhor Ardur de Miranta?  
 
 
Artur - Em carne e osso.  
 
 
Ruprecht - O namorato da menina?  
 

 
Artur - Ento, avia-te.  
 
 
Ruprecht ( parte) - Coitato! (Sai pela esquerda)  
 
 
 
CENA VI  
Artur e depois Matias.  
 
 
Artur - Quem ser este palerma? (Coloca a mala e o chapu em cima da mesa e senta-se) Eis-me, enfim, em vsperas de 
tomar estado. Quem diria?!  
 
 
Matias (Com um lado do rosto ensaboado e segurando a navalha) - Eu bem dizia que o trem j tinham chegado. 
(Abraando Artur) Cuidado, no se corte. O compadre no veio?!  
 
 
Artur - No pde.  
 
 
Matias - Seria por cerimnia?  
 
 
Artur - Sabe que meu pai no pode abandonar presentemente a fazenda.  
 
 
Matias - Eu logo vi; havera de ser bonito que o compadre fizesse cerimnia comigo. Mas onde est esta gente? 
Gertrudes? Josefina?  
 
 
Artur - No as incomode.  
 
 
Matias - Olhe que esta casa j  sua; pode ir entrando, e dispondo de tudo.  
 
 
 
CENA VII  
Os Mesmos, Josefina e Gertrudes.  
 
 
 
 
Gertrudes - Quanto folgo de v-lo. (Aperta a mo de Artur)  
 
 
Artur (Para Josefina) - Como tem passado?  
 
 
Matias - Eu j volto. (Sai)  
 
 
 
CENA VIII  
Artur, Josefina e Gertrudes.  
 
 
Gertrudes (Olhando maliciosamente para Josefina) - No imagina a ansiedade com que era esperado.  
 
 

Artur - Deveras?  
 
 
Gertrudes - Esses dias tm corrido para Josefina com tal lentido...  
 
 
Artur - Avalie como eu os passaria em Petrpolis. H um ms que no vejo o sol. O astro rei, uma ou outra vez, por 
especial favor, mostra-nos a face naquele cu, sempre carrancudo que afugenta as estrelas e onde a lua raras noites 
desenha o perfil. Um poeta cantou a lua de Londres; eu hei de cantar o sol de Petrpolis. (Espirrando)  
 
 
Gertrudes e Josefina - Viva!  
 
 
Artur - Obrigado. No faam caso, so efeitos daquele belo clima. Quem por ali passa paga o tributo de um defluxo, 
ou...(Espirra)  
 
 
Gertrudes e Josefina - Viva!  
 
 
Artur - Ora, por quem . No meio daquela monotonia consolava-me uma idia.  
 
 
Josefina - Qual era?  
 
 
Artur - A ventura que terei de gozar no novo estado que me espera.  
 
 
Gertrudes (Para Josefina) - Curiosa!  
 
 
 
CENA IX  
Os Mesmos e Matias  
 
 
 
Matias - Por que no vai se acomodar? Deve estar fatigado da viagem. (Artur espirra) Est constipado?  
 
 
Artur - Dou-me muito mal com a atmosfera l de cima.  
 
 
Matias - Aquela fazenda de seu pai  muito sujeita a atmosferas.  
 
 
Gertrudes (Baixo a Matias) - J comeas a dizer asneiras.  
 
 
Matias (Alto) - Qual foi a asneira que eu disse?! Minha mulher entende que eu sou um menino de escola e est 
constantemente a dar-me lios. Pois olhe, Senhor Artur, eu fiz, no h muitos anos, inzame de protugus em Alagoas e 
fui aprovado com distino.  
 
 
Gertrudes - Est bom, ns j sabemos.  
 
 
Matias - Mas o Senhor Artur no sabe, porque ainda no lhe contei esta. Havia em Macei um agente da companhia de 
vapores chamado Manoel Maria. O inzaminador, que queria espichar-me na tal gramtica, deu-me para analisar a 
seguinte orao: - O vapor chegou. - O verbo  chegou, no? - Sim, senhor. Quem  o agente? Eu que sou fino, 
respondi-lhe imediatamente: -  o Senhor Manoel Maria. O meu professor, que estava ao lado, desatou a rir do sangue 

frio com que respondi  progunta e no dia seguinte vi o meu nome, como o de um dos concurrentes mais habilitados ao 
lugar que pretendia.  
 
 
Artur - Est visto.  
 
 
Matias - Eu serei burro, mas bo senso no me falta.  
 
 
Gertrudes - Oh! pois no.  
 
 
Matias - Ultimamente no Paraguai mandei deitar abaixo uma linha do telfrago.  
 
 
Gertrudes (Interrompendo-o) - Vamos para dentro, Senhor Artur. (Baixo a Matias) Ests dizendo muitas asneiras.  
 
 
Matias - No acha que fiz bem?  
 
 
Artur - Muito bem.  
 
 
Matias - Pois o bo senso no estava dizendo que aquilo era uma coisa intel?! Aquela gente falava o guarani, ns 
falamos o protugus. De que nos servia um telfrago em guarani? Mas eu estou aqui a maar-lhe a pacincia. Ento, no 
acha a menina mais gordinha?  
 
 
Josefina - O que  isto, papai?  
 
 
Artur - Sempre bela e encantadora.  
 
 
Matias - Pois olhe: devia estar muito magra; pois que desde que o conhece vive aqui em casa numas aflios! Vestidos 
para aqui, rendas para acol. - O Senhor Artur no gosta disso, gosta mais daquilo...  
 
 
Josefina - Papai.  
 
 
Matias - Ontem estava dizendo  me que queria cortar aquela duas barruguinhas do queixo porque parecia-lhe que o 
senhor implicava com elas.  
 
 
Josefina - Papai.  
 
 
Matias - E no entretanto eu acho que aquilo d-lhe muita graa. Parece dois grezinhos de milho.  
 
 
Gertrudes (Baixo) - Gros, gros.  
 
 
Matias - Com os diabos! No outro dia disseste-me - capito, capites; logo gro, gres.  
 
 
Gertrudes - Est bem; dize l como quiseres.  
 
 
Matias - Faceirice at ali.  

 
 
Josefina - Vosmec nunca h de perder o sestro de contar tudo quanto ouve e v.  
 
 
Artur -  um hbito, como outro qualquer.  
 
 
Matias - Diz muito bem,  um hbito. No sabe da histria da raposa e do macaco?  
 
 
Artur - No, senhor.  
 
 
Matias - O macaco disse um dia  raposa: - Por que olhas para trs sempre que entras em um capo de mato? A raposa 
perguntou ao macaco: - E tu, por que no podes estar cinco minutos sem te coares? Apostaram qual dos dois levaria 
mais tempo, um sem se coar, outro sem olhar para trs. Seguiram ambos por um campo. A raposa, mais astuta, 
querendo ver o que lhe ficava pelas costas sem perder a aposta, puxou a seguinte conversa: - Aqui houve em outros 
tempos uma grande batalha em que morreu uma quantidade extraordinria de bichos; todo este campo (Voltando-se ao 
redor da cena) ficou cheio de cadavres. O macaco, que era mitra, acudiu logo: - verdade, o defunto meu av c esteve 
e ficou todo baleado por aqui, por ali...(Imita o macaco, coando as costelas)  
 
 
Artur (Rindo) - Magnfico, magnfico!  
 
 
Matias - Assim sou eu.  
 
 
Gertrudes - Pois fazes mal, nem tudo se deve contar. H bem pouco tempo deste motivo a boas gargalhadas em casa do 
Queiroz com a histria dos cadetes.  
 
 
Matias - Riram-se,  verdade, mas foi por causa da lio que dei aos tais sujeitos. Vinha uns cadetinhos no bondio dos 
fumantes, j se sabe - charutinho na boca, e nada de me tirarem os chapu, apesar de eu estar fardado e trazer as 
competentes divisa. Eu viro-me para eles e digo-lhes com certo ar de ironia: - Senhores cadetes, como vai? A coisa 
produziu logo efeito, porque um deles, descobrindo-se com todo o acatamento, disse-me: - Senhor capito, como vo?  
 
 
Gertrudes (Para Artur) - Por que no entra?  
 
 
Artur - Se me permite, ficarei conversando com Dona Josefina.  
 
 
Gertrudes (Baixo a Matias) - Vamos, eles querem ficar ss.  
 
 
Matias (Para Artur) - Magano! (Sai juntamente com Gertrudes)  
 
 
CENA X  
Artur e Josefina.  
 
 
 
 
Artur - Por que hs de ser to faceira?  
 
 
Josefina - No acredite nas histrias de papai. E quando fosse verdade...(Com inteno) Quem no se enfeita...  
 
 

Artur - A si se enjeita, tens razo. Se ns homens pagamos tributos  vaidade, as mulheres devem render a essa deusa o 
mais fervoroso culto.  
 
 
Josefina - Pelo que vejo, ento, a minha pessoa representa um papel muito secundrio nesse amor que diz consagrar-
me?  
 
 
Artur - Oh! no, minha cara Josefina; mas essas aparncias, que o mundo chama futilidades, so para o sentimento o 
que a aragem  para o fogo. Um poeta disse que a toalete  a alma da mulher.  
 
 
Josefina - Amargo epigrama s filhas de Eva. Seria o mesmo que dizer que o merecimento artstico de uma tela depende 
da custosa moldura que a cerca.  
 
 
Artur - Quando te vejo, ostentando as galas da elegncia, parece-me que teus olhos brilham com mais fulgor, que teus 
lbios purpurinos se abrem como dois botes de rosa aljofrados pelo orvalho da manh, que tens sobre a fronte um 
diadema de luz e que pisa a criao com o pezinho mimoso e feiticeiro que o sapatinho oprime.  
 
 
Josefina ( parte) - Meu Deus! Se ele soubesse! Eu morreria de vergonha!  
 
 
Artur - Parece que tua cintura quebrar-se-ia ao menor contato...  
 
 
Josefina - Tu no me amas.  
 
 
Artur - Se te amo! (Tirando uma sempre-viva do bolso) Conheces esta sempre-viva? Trago-a bem junto do corao, 
desde o dia em que ma deste. Esta flor quer dizer - amar at morrer. Eu juro, por este penhor sagrado, que hei de amar-
te at a morte.  
 
 
A sempre-viva que me deste,  bela,  
Oh! sempre viva me ser na mente,  
Nas ptalas d'ouro que esta flor ostenta,  
Leio o protesto de um amor ardente.  
 
 
Se a flor mimosa desbotar no pode,  
Mesmo dos anos ao poder nefando,  
Ao seio unida, viverei com ela,  
Beijando as ptalas morrerei te amando.  
 
 
Amor to puro, como eu sonho, arcanjo,  
Vejo exalar-se desta flor divina,  
Oh! seja embora meu amor um crime,  
Hei de adorar-te como a flor me ensina.  
 
 
A sempre-viva que me deste,  bela,  
Oh! sempre viva me ser na mente,  
Nas ptalas d'ouro que esta flor ostenta,  
Leio o protesto de um amor ardente.  
 
 
 
CENA XI  
Os Mesmos e Ruprecht  
 

 
 
 
Ruprecht (Entrando com uma vela e acendendo as da sala) - L esta a zonza a iludir o bobre rabaz. Eu vai te arma uma 
poa lao.  
 
 
Artur (A Josefina) - Que maante! Quem  este palerma?  
 
 
Josefina -  um criado alemo, por quem papai morre de amores. D-me o seu brao e vamos ao jardim. (Artur d o 
brao a Josefina e passa por perto de Ruprecht)  
 
 
Ruprecht (Baixo) - Eu guer lhe falar.  
 
 
Artur - Se me permite, irei daqui a pouco.  
 
 
Josefina - Como queira. (Sai)  
 
 
 
CENA XII  
Ruprecht e Artur.  
 
 
 
 
Artur - O que queres?  
 
 
Ruprecht (Examinando cautelosamente as portas) - Scio!  
 
 
Artur - Que diabo de mistrio  este?  
 
 
Ruprecht - Este menina no est pom, non.  
 
 
Artur - O que queres dizer com isto?  
 
 
Ruprecht - Bai no sape de nata e me sem ferconha serfe de capa.  
 
 
Artur - Patife!  
 
 
Ruprecht - Batife, ia wohl, endra todo o tia neste zala e est azim (Ajoelhando-se) ao b de noifa de foc.  
 
 
Artur - Estarei eu sonhando, Santo Deus! Fala, demnio; mas fala portugus, de modo que eu te entenda.  
 
 
Ruprecht - Menina tem um amande, foc no defe gasa com ela.  
 
 
Artur - E se eu te disser que ests mentindo como um co!  
 
 

Ruprecht (Zangado) - Engole este palafra, eu no mente. (Avanando) Engole j palafra. Du bist ein Schaffskopf. 
(Ameaando-o com o punho no rosto)  
 
 
Artur - Est bom, est bom.  
 
 
Ruprecht - Engole j palafra.  
 
 
Artur - J engoli.  
 
 
Ruprecht - Eu guer lhe abre os olhos em dempo e foc est muito sem ferconha.  
 
 
Artur - Mas tu tens certeza do que ests dizendo?  
 
 
Ruprecht - Ya wohl. Gewiss.  
 
 
Artur - Pois ser crvel que aquele anjo de candura... Deus de bondade, eu te agradeo por me teres iluminado to 
horrendo precipcio!  
 
 
Ruprecht - O que fai facer?  
 
 
Artur - Lanar em rosto desta mulher a infmia que cometeu para comigo e despedir-me para sempre desta casa.  
 
 
Ruprecht - Esbera um bouco. Foc guer fr com suas prprias olhos?  
 
 
Artur - Sim, sim.  
 
 
Ruprecht - Ento gala sua boca, no d esgandalo. Ns abanha sujeita com poa na potija. Fai pra dentro e faz cara de 
dolo.  
 
 
Artur - Mulheres! Mulheres!  
 
 
Ruprecht - Fai pra dentro. (Artur sai) Bobre rabaz! (Acende a ltima vela e sai)  
 
 
 
CENA XIII  
Andr Barata, s.  
 
 
 
 
Andr Barata (Entrando pela ltima porta da direita) - Aquela menina ainda h de ser a causa da minha perdio. 
Obriga-me a entrar aqui pela porta da cozinha, num belo dia esbarro-me face a face com o pai e do-me cabo do 
canastro. Se a me no consentisse, eu j tinha sido infalivelmente pilhado, e tudo por um capricho tolo; sim, porque no 
fim de contas, que mal havia que o noivo soubesse das minhas visitas? O corao est me vaticinando que hoje 
acontece-me alguma (Canta)  
 
 
Por amor de uma menina,  

Estou metido em boa cama,  
Se me livro da esparrela  
No caio noutra trama.  
 
 
Quando entro aqui  noite,  
Perco a fala fico mudo,  
Sinto cimbras pelas pernas,  
Sinto frio, sinto tudo.  
 
 
 
CENA XIV  
O Mesmo, Josefina e depois Ruprecht.  
 
 
 
 
Josefina - Constipava-me no jardim,  sua espera...Jesus! o senhor aqui?!  
 
 
Andr - Pois no me disse anteontem que esperava-me hoje a estas horas? Sou pontual como um ingls.  
 
 
Josefina - Meu Deus! Ele pode chegar...  
 
 
Andr - Minha senhora, declaro-lhe, com a franqueza que me caracteriza, que no compreendo os seus escrpulos.  
 
 
Josefina - O senhor no v que se ele soubesse deste segredo me repeliria no mesmo instante.  
 
 
Andr - No creio, minha senhora; ele havia de fazer todo o possvel para ocultar isto e, at depois de casado, as portas 
de sua casa abrir-se-iam de par em par para receber-me.  
 
 
Josefina - Depois de casada, nunca, senhor! Porque eu morreria no dia que meu marido suspeitasse disto.  
 
 
Andr - E sua me no sabe de tudo?  
 
 
Josefina - Sabe,  verdade; porm ela padecia do mesmo mal quando se casou com meu pai...  
 
 
Andr - Ento, j v que...  
 
 
Josefina - Mas meu pai no se importa com essas coisas.  
 
 
Andr -  um excelente marido.  
 
 
Josefina - E eu a conversar com o senhor! Artur no tarda por a, v-se embora.  
 
 
Ruprecht (Aparecendo na porta) - Prafo! Abanhei-os. (Sai)  
 
 
 
 

CENA XV  
Josefina, Andr e depois Artur.  
 
 
 
 
Andr - A minha demora  muito pequena; sente-se e vejamos como vai o seu p. (Senta-se no sof)  
 
 
Josefina - Ele pode surpreender-nos.  
 
 
Andr - So cinco minutos apenas.  
 
 
Josefina - Aqui mesmo?  
 
 
Andr - Por que no?  
 
 
Josefina - Ai, ai, se no lhe tivesse tanto amor...Vamos, mas muito depressa. (Artur aparece na porta, Josefina senta-se 
no sof e Andr, ajoelhando-se, segura-lhe no p)  
 
 
Artur (Entrando) - Infame!  
 
 
Josefina (Assustando-se) - Ai! (Andr esconde-se rapidamente na primeira porta da direita. Artur olha com raiva 
concentrada para Josefina, que abaixa a cabea)  
 
 
 
CENA XVI  
Ruprecht, Josefina e Artur.  
 
 
 
Ruprecht - Eu fai arruma minha ba, e fai me embora, patifaria muito crande. (Entra pela segunda porta da direita)  
 
 
Josefina - Artur!  
 
 
Artur - Sei de tudo, senhora.  
 
 
Josefina - Sabes de tudo?! Cus! O que disse ele! No me desprezes, eu te peo, em nome do que tens de mais santo.  
 
 
Artur - Vilmente enganado!  
 
 
Josefina - Eu te juro que  falso. No creias, no  verdade.  
 
 
Artur - E ousas negar quando acabo de ver...  
 
 
Josefina (Com vivacidade) - No viste,  mentira.  
 
 
Artur - Basta, senhora; esta cena est me irritando os nervos e eu saberei o partido que hei de tomar. (Canta)  

 
 
Linda e pura como um anjo  
Julguei-te nos sonhos meus,  
Quebraram-se os teus encantos  
Serena imagem de Deus.  
 
 
Dos jardins da minha vida  
Foste a rosa sedutora:  
J no vives neste peito  
Mulher falsa e traidora.  
 
 
Josefina (Canta) -  
 
 
Engan-lo j no posso,  
Para sempre estou perdida,  
Quebraram-se os seus encantos,  
E a iluso de minha vida.  
 
 
Josefina - Artur! (Quer segurar-lhe na mo)  
 
 
Artur (Saindo pela segunda porta da esquerda) - Deixe-me.  
(Josefina quer segui-lo, mas volta, deixando-se cair no sof)  
 
 
 
CENA XVII  
Josefina e Gertrudes.  
 
 
 
 
Gertrudes - Onde est o Senhor Artur?  
 
 
Josefina (Encostando a cabea ao peito de Gertrudes e chorando) - Hi! Hi! Hi!  
 
 
Gertrudes - O que tens, menina?  
 
 
Josefina - Est tudo descoberto!  
 
 
Gertrudes - Como?  
 
 
Josefina (Levanta-se) - Artur vai abandonar-me e propalar a minha vergonha por toda a parte.  
 
 
Gertrudes - Mas como foi isto? Conta-me.  
 
 
 
CENA XVIII  
As Mesmas e Andr.  
 
 

 
 
Andr (Tremendo) - J se foi?  
 
 
Gertrudes - O Senhor Andr!  
 
 
Andr -  verdade, minha senhora, antes no fosse.  
 
 
Gertrudes - Mas o que veio fazer o senhor hoje c?  
 
 
Josefina - Artur surpreendeu-o aos meus ps e disse-me que j sabia de tudo. (Chorando) Hi! Hi! Hi! (Sai pela primeira 
porta da esquerda)  
 
 
 
CENA XIX  
Andr e Gertrudes.  
 
 
 
Gertrudes - Que indiscrio, senhor?  
 
 
Andr - E ento! Pois  a senhora que me chama de indiscreto? Quem foi que me disse que eu viesse c hoje?  
 
 
Gertrudes -  verdade, no me lembrava...saia, saia.  
 
 
Andr - Eu sairia correndo como um veado, mas no sei que diabo tenho que as pernas esto a tremer-me como canios 
agitados por um grande temporal.  
 
 
Gertrudes - Onde est o seu chapu?  
 
 
Andr - Daria um doce  senhora, se me dissesse onde est a minha cabea. (Gertrudes procura o chapu). Muito custa a 
levar-se esta vida honradamente.  
 
 
Gertrudes (Achando o chapu, em cima de um dos aparadores) - Tome. (Andr toma o chapu, deixa-o cair aos ps de 
Gertrudes e abaixa-se para apanh-lo, no momento em que aparece Matias na segunda porta da esquerda)  
 
 
 
CENA XX  
Os Mesmos e Matias.  
 
 
 
 
Matias - Um home nos peses de minha mulher! (Andr corre precipitadamente, escondendo-se na segunda porta da 
direita) Senhora Dona Gertrudes! (Com furor)  
 
 
Gertrudes - No  preciso alterar-se,  a coisa mais simples deste mundo.  
 
 

Matias - A senhora arrecebe um home em minha ausncia, e tem o atrevimento de vir dizer-me que  a coisa mais 
simples deste mundo!  
 
 
Gertrudes - Miservel! Duvidas de tua mulher!  
 
 
Matias - No me faa ferver o sangue. Olhe que entre mim e a senhora h um mundo de cobrinhas furta-cores. Eu no 
estou bo, senhora.  
 
 
Gertrudes - Fala baixo; queres fazer um escndalo?  
 
 
Matias - Falo bem arto; todo o mundo h de saber que a senhora me traiu. O casamento de nossa filha est 
desmanchado, porque a senhora acaba de compromet-la.  
 
 
Gertrudes - Mentes.  
 
 
Matias - Artur acaba de me contar tudo; ele julgava que Josefina, aquela pomba sem fel...- e no entretanto  a me...  
 
 
Gertrudes - Senhor Matias, deixe-me falar.  
 
 
Matias - No; primeiro hei de saciar a minha vingana no infame sedutor. Entra para ali Lucrcia Brogia. (Aponta para 
a primeira porta da esquerda) J para ali.  
 
 
Gertrudes - O que ir acontecer, meu Deus! (Sai)  
 
 
 
CENA XXI  
Matias e Artur.  
 
 
 
 
Matias - Sou eu a vtima.  
 
 
Artur - O senhor?!  
 
 
Matias - Sim; o negcio  com minha mulher.  
 
 
Artur (Zangado) - Ora, Senhor Matias.  
 
 
Matias - Apanhei-os.  
 
 
Artur - Quem?  
 
 
Matias - Gertrudes e o tal sujeito de que me falou.  
 
 
Artur - Se no est caoando comigo, digo-lhe que est doido.  

 
 
Matias - Mas se eu vi.  
 
 
Artur - Se eu tambm vi.  
 
 
Matias - O senhor est bem certo disso?  
 
 
Artur - Pois no lhe disse j que estive h pouco com ela nesta sala?  
 
 
Matias - Ento so dois. Ns tambm samos dois, seguremos os bichos.  
 
 
Artur - Acredita porventura que eles estejam ainda aqui?  
 
 
Matias - O meu entrou ali. (Indicando a segunda porta da direita) Fechemos as portas. (Fechando a porta do fundo e a 
primeira e segunda da esquerda) Ah!  preciso apagar as velas. (Apaga-as) Agora toda a cautela so poucas. (Tateando) 
Venha me seguindo. (Chegam  segunda porta da direita) Coloque-se do lado de l, eu ficarei aqui. (Artur fica a um 
lado da porta e Matias do outro lado)  
 
 
Artur - Mas isto assim, sem uma bengala ao menos.  
 
 
Matias - O senhor no tem mes? Scio! Assim que aparecerem a cabea do sujeito...zs. (Apertando o pescoo) Deve-se 
fingir voz de mulher. (Com voz fina) Pode entrar.  
 
 
Artur (Com voz fina) - Entrem, eles j se foram.  
 
 
 
CENA XXII  
Os Mesmos, Ruprecht e depois Andr.  
 
 
 
 
Ruprecht (Entrando) - Gue escurito! (Matias e Artur agarra-lhe no pescoo. Ruprecht quer gritar e no pode, e vm os 
trs  boca da cena)  
 
 
Matias - Aperte sem d, nem piedade.  
 
 
Artur - Est seguro. (Andr entra)  
 
 
Andr ( parte) - Bonito! A porta do quintal fechada, e eu aqui s escuras. (Tateando)  
 
 
Matias - Hs de morrer como um porco. Aperte, seu Artur.  
 
 
Andr ( parte) - O que ouo?!  
 
 
Artur - O bicho no nos escapa mais.  

 
 
Andr ( parte) - Morrer como um porco! Ca num matadouro!  
 
 
Ruprecht (Conseguindo tirar do pescoo a mo de Matias) - Zogorro! Zogorro!  
 
 
Matias - O alamo?! (Artur larga o pescoo de Ruprecht)  
 
 
Andr ( parte) - Santa Brbara! Onde estar a porta da rua? (Tateando)  
 
 
Ruprecht - Gue guer dizer isdo?!  
 
 
Matias - Cala a boca, no faas barulho. O sujeito est aqui; e  preciso gazofil-lo.  
 
 
Ruprecht - Mas eu no zou o zujeito!  
 
 
Artur - Os patifes so dois e no um, como me disseste. Procurmo-los. (Os trs tateiam pela cena)  
 
 
Andr - Ei-los comigo! (Tateando, esbarra-se no sof, e fica de ccoras em cima daquele. Ruprecht esbarrando em 
Matias, toma-o por Andr e segura-lhe no pescoo, Matias quer gritar e no pode, Artur passa a mo pela cara de 
Andr)  
 
 
Andr (Gritando e correndo) - Socorro! Socorro!  
 
 
Ruprecht - Um x est securo.  
 
 
Artur (Tateando, em procura de Andr, esbarra-se com Ruprecht, toma-o por aquele e aperta-lhe o pescoo) - Achei-te 
enfim! (Ruprecht quer gritar e no pode)  
 
 
Andr (Gritando) - Socorro! Socorro!  
 
 
 
CENA XXIII  
Gertrudres, Josefina, Andr, Artur, Ruprecht e Matias.  
 
 
 
Gertrudes (De dentro, batendo na porta) - Abram a porta.  
 
 
Artur - Agente, seu Matias. (Gritando) - Uma vela, que eu j no posso.  
 
 
Andr ( parte) - Se eu achasse a porta da rua...  
 
 
Gertrudes (De dentro) - Ento abrem ou no?  
 
 
Artur (Gritando) - Uma vela, pelo amor de Deus!  

 
 
Gertrudes (Arrombando a porta e seguida de Josefina que traz uma vela) - O que  isto?!  
 
 
Artur (Deixando Ruprecht) - Pois era tu?!  
 
 
Ruprecht (Deixando Matias) - Pois era o zenhor?!  
 
 
Artur - Onde est o sedutor?  
 
 
Josefina (Para Andr) - Fuja, fuja.  
 
 
Matias (Avanando para Andr) - Eis aqui o marvado. (Segurando-o pela gola do palet) Agora no me escapars.  
 
 
Andr (A Gertrudes) -  senhora, deslinde toda esta alhada, que a minha vida est por arames.  
 
 
Gertrudes - Este homem est inocente.  
 
 
Matias - Eu j te vou dar a inocncia, grandissssimo maroto. Xubregas? A minha espada.  
 
 
Ruprecht - Brombto. (Sai)  
 
 
 
CENA XXIV  
Os Mesmos, menos Ruprecht.  
 
 
 
Gertrudes - Senhor Matias, um escrpulo mal entendido da nossa filha  a causa desta cena.  
 
 
Josefina - Pelo amor de Deus, minha me, cale-se.  
 
 
Artur - Deixe sua me falar, senhora.  
 
 
Gertrudes - Este homem  um pedicura.  
 
 
Matias - Pedicura!  
 
 
Andr -  a pura verdade, senhor; sou formado neste difcil ramo, e merecia que me tratassem com mais considerao.  
 
 
Matias - Mas o que veio fazer em minha casa?  
 
 
Gertrudes - Josefina sofre...  
 
 
Josefina - Ela vai dizer tudo! Minha me...  

 
 
Artur - Fale, fale, minha senhora.  
 
 
Gertrudes - Josefina sofre de uma molstia horrvel...  
 
 
Matias e Artur - Qual ?  
 
 
Gertrudes - Tem um joanete!  
 
 
Josefina - Est tudo acabado! (Cobre o rosto com as mos)  
 
 
Matias (Deixando Andr) - Um joanete?! Que diacho vem a ser isto, senhor?  
 
 
Andr (Com tom dogmtico) - O joanete  o diabo em forma de osso que se agrega ao p, faz com ele comrcio de 
amizade, aumenta-lhe a base e uma vez estabelecido o seu domnio, entendiam os antigos pedicuras que era impossvel 
desaloj-lo. Eu, porm, depois de um acurado estudo, em que gastei a mais bela parte da minha mocidade, descobri um 
remdio milagroso, perante o qual todos os joanetes se abatem, como provam os atestados, que passo a ler. (Tira 
diversos papis do bolso)  
 
 
Matias - No me explicar, senhora, esta embrulhada?  
 
 
Gertrudes - Josefina queria ocultar este defeito ao Senhor Artur. Vendo anunciadas nos jornais curas milagrosas feitas 
pelo Senhor Andr Barata, resolveu, com meu consentimento, receb-lo aqui em segredo...  
 
 
Matias - E como me ocultaram isto?  
 
 
Gertrudes - Com o teu gnio falador, irias contar tudo ao Senhor Artur e a pobre menina estava persuadida que o seu 
noivo a abandonaria no dia em que soubesse do fatal segredo.  
 
 
Artur (Para Josefina) - Por que me julgaste to mal? Acreditavas porventura que te idolatrando com um anjo...  
 
 
Gertrudes - Era o que eu lhe observava, porque, no fim de contas, o que quer dizer um joanete? (Para Matias) Eu tenho 
um enorme e tu nunca deste pela coisa.  
 
 
Josefina (Para Artur) -  de famlia.  
 
 
Andr (Lendo) - "Atesto que o Senhor Barata tirou-me oito calos do dedo mnimo..."  
 
 
Matias - Esta bo; abasta. V em paz e agardea  Providncia o no ter de ir daqui para a botica.  
 
 
Josefina (Para Artur) - No me desprezas?  
 
 
Artur - Pelo contrrio, cada vez te amo mais. (Para Andr) Autorizo-o a continuar desassombrado a cura encetada e 
ponho  sua disposio a minha bolsa.  
 

 
Josefina - Mas atestado, por forma alguma.  
 
 
 
CENA XXV  
Gertrudes, Ruprecht, Artur, Andr, Matias e Josefina.  
 
 
 
Ruprecht (Com a espada embainhada e fazendo esforo por tir-la da bainha) - Aqui est a esbada. Muito  verrugem, 
non sai, non.  
 
 
Matias - Leva-a para dentro; j no  preciso.  
 
 
Ruprecht - Gomo?  
 
 
Matias (Batendo no ombro de Gertrudes) - Sempre me meteste um susto...  
 
 
Ruprecht (Para Artur) - Gomo se expliga isdo?  
 
 
Artur - As aparncias muitas vezes enganam, meu palerma.  
 
 
Ruprecht ( parte) - Bercepo, apafaram o negocia em famlia.  
 
 
Josefina (Canta) - Meus senhores e senhoras,  
Quero dar-lhes um lembrete,  
No propalem por a...  
 
 
Gertrudes (Canta) - Que ela tem um joanete.  
 
 
Todos (Menos Ruprecht) - Silncio! Scio ! Ateno!  
Por favor bico calado,  
Que um defeito de famlia  
No deve ser revelado.  
 
 
(Cai o pano)  
